quinta-feira, 24 de abril de 2014

Em Eze Com Nietzsche



Há dias assim, em que somos surpreendidos pelas estórias dos lugares. Eu gosto de lugares onde nós encontramos com as nossas memórias, lugares que nos preenchem de significados. 

Eze é uma vila medieval entre o Mônaco e Nice. Um local bonito, uma subida íngreme e, lá em cima, no topo de um penhasco sobre o mar, ergue-se um amontoado de casinhas de pedra, entre ruas estreitas, protegidas pelo que resta de um velho castelo. Os Mouros andaram por lá e conquistaram a cidade em 900, terão ficado cerca de 70 anos e deixaram memórias. Ali houve uma leprosaria e, mais recentemente, foi, também, local de refúgio de tuberculosos. Hoje, há pequenas lojas de artesanato, galerias de arte, a maioria delas exibindo obras de duvidosa qualidade, esplanadas e restaurantes. Os perfumes, há duas fábricas de perfumes (de essências) e as flores, mais ou menos exóticas, são uma constante. Um sítio para passear, para apreciar e para degustar lentamente.

Gostei de Eze, mas o que realmente me fascinou, captou os meus sentidos e me tirou do marasmo do olhar apressado de mais uma pequena vila medieval, como há tantas por essa Europa fora, foi a presença de Nietzsche. Ele andou por aqui, algures entre os anos de 1883 e 1885 este era o refúgio, a sul, do homem que declarou a morte de Deus, "Gott ist tot". Terá sido por aqui que uma parte do livro "Assim Falava Zaratrusta" terá sido escrito.

As minhas memórias levam-me para um passado com mais de 30 anos, aos 17 anos lia e relia esse livro, perdia-me na escrita difícil de Nietzche, procurava nela um sentido, uma orientação para a imensa tarefa de aperfeiçoamento que é crescer e, ao mesmo tempo, perceber as subtilezas da Alma. 

Provavelmente nunca o conseguirei, perceber as subtilezas da Alma. A tarefa continua, já sem Nietzsche, já longe dos 17 anos, mas com o mesmo encanto e olhar ingênuo. 




sexta-feira, 18 de abril de 2014

De Autocarro em Havana




Há muitas formas de viajar e há, também, muitos motivos para viajar, daí que eu tenha escolhido como tema para as minhas estórias, as viagens de trabalho. A verdade, é que as minhas viagens mais estimulantes e mais enriquecedoras foram, até hoje, as viagens de trabalho. Uma viagem de trabalho tem um objectivo muito claro: cumprir uma determinada tarefa; ver e aprender algo de novo, num evento ou numa conferência; conhecer novas abordagens relevantes para o desenvolvimento de um novo projecto; enfim, há um sentido de utilidade na viagem. Depois, há todas as outras coisas que, cumprido esse objectivo principal, acontecem e têm um sabor muito especial. São os momentos de lazer e, tantas vezes, de convívio fraterno. 


Quando ao fim de um dia de trabalho me sento na esplanada de um café, simplesmente a apreciar o movimento das pessoas, olho para as suas mesas e vejo o que comem ou o que bebem, há, invariavelmente, um sentimento de plenitude que me invade, uma sensação de comunhão com o lugar e, sobretudo, um enorme respeito por tudo o que me rodeia.

Mesmo quando viajo de férias, não viajo como turista, talvez por isso não aprecie os locais a que chamam de “turisticos”. A atitude apressada e totalitária dos turistas aflige-me. O turista espera sempre que tudo esteja perfeito para o receber. Quer, durante aqueles seus dias de férias, viver de forma perfeita, num mundo que é perfeitamente irreal e que nunca reflecte as reais circunstâncias da vida e das pessoas daquele lugar. Talvez por isso, não raras vezes, vejo os turistas a queixarem-se do seu próprio país e a desejarem viver num daqueles países por onde andaram de férias. 

Há alguns anos estive em Cuba, numa viagem de trabalho, para participar numa Conferência e apresentar um trabalho que desenvolvi na área cultural, enquanto trabalhei na Fundação INATEL. Como não fiquei alojada no Hotel onde decorria a Conferência e o local onde me instalei estava a cerca de 5 Km de Havana, vi-me confrontada com todo tipo de dificuldades inerentes às deslocações. No dia da minha apresentação tinha tudo preparado para chegar ao local da Conferência duas horas antes. De véspera, solicitei na recepção, a reserva de um taxi para uma hora certa; no dia, levantei-me bastante cedo, para ter tempo de, calmamente, me arranjar e tomar um bom pequeno almoço, fazer uma caminhada e preparar-me para me dirigir a uma plateia de mais de 300 pessoas. Tinha tudo perfeitamente planeado, com tempo suficiente para cumprir todos as minhas tarefas calmamente e sem stress. Mas o imprevisto aconteceu: o taxi não apareceu. O recepcionista fez vários telefonemas, tentaram-se outros taxis, mas ao fim de mais de uma hora, nada. A minha serenidade estava a ir para o espaço, eu não conseguia vislumbrar como poderia sair daquele local a tempo de fazer a minha apresentação. Tentei de tudo, inclusive alugar um carro e, até, uma mota... tudo era dificuldade e impossibilidade.  Quando estava prestes a desistir chegou um autocarro turístico, que vinha do aeroporto, e fazia o transfer de turistas para aquele hotel. Dirigi-me ao motorista e propus-lhe que me levasse ao Centro de Congressos pelo dobro do preço que eu pagaria pelo taxi. Confesso que não esperava uma resposta positiva mas, contra todas as minhas expectativas, o homem aceitou e lá cheguei eu ao Centro de Congressos, cerca de 20 minutos antes da minha apresentação, sozinha, num autocarro para 60 pessoas. 

Este acontecimento é, por si só, digno de ser contado, mas o mais curioso foi a observação de Sra. Cubana, responsável pela organização daquela conferência internacional, que, quando lhe contei o sucedido, se limitou a dizer-me: - “ainda bem que tiveste a atitude de um cubano e resolveste o teu problema”. 

Como europeia e convidada, eu esperava, no mínimo, um pedido de desculpas por tudo o que passei naquela manhã para chegar a horas ao meu compromisso. Mas, como ela bem me fez notar, a responsabilidade por chegar a horas era um problema meu, eu estava em Cuba (e não em qualquer país europeu, onde os taxis cumprem horários) e tinha que respeitar e aceitar o que de bom e de mau havia naquele local onde era, apenas, uma visitante.